1994

Relatos pós-enfermaria 25: Rapidinhas ou nem tanto. Melhor não confiar no meu poder de síntese. Conforme vou me recuperando com o passar dos dias, as memórias e as lembranças, surgidas entre a neblina, saindo das catacumbas vão aparecendo também, umas ácidas, outras picantes, as vezes românticas, vividas em outras décadas, outras mais recentes, algumas inusitadas, mas sempre extraordinárias, porque vividas. Hoje é dia das apimentadas. 1994 para muitos foi um ano comum do século XX, iniciado num sábado, segundo o calendário gregoriano. Como em todos os anos comuns, teve terça-feira de Carnaval, que ocorreu em 15 de fevereiro, quaresma, receitas de peixe, sexta-feira santa, domingo de Páscoa, e todas as celebrações católicas – cristãs, que um país laico tem direito, e que o comércio exige. No horóscopo chinês, o ano foi do Cão. Para mim, foi mais um ano de intensidade, primeiro ano inteiro fora de casa, recém separado, num emprego novo, fora da cidade natal, sozinho, numa cidade pequena e provinciana que olhava com desconfiança o forasteiro cabeludo que chegava sem cerimônia nenhuma e respeito algum pelos xerifes locais, que de armas em punho, descarregavam sem piedade suas frustrações e rancores, ao primeiro contato com o estrangeiro. Lembro inclusive de um dia que um desconhecido local, que nunca mais vi, me chamou no balcão da recepção da antiga junta de conciliação, meu novo local de trabalho, e me entregou um lindo buquê de flores e foi embora sem dizer nada. Afinal, parecia que os sertanejos locais, não eram tão hostis assim e tinham até um certo refino no gosto, e tinha sido eu, muito rigoroso em meu julgamento, concluí. “Esse é o namorado da juíza da comarca, aquela que vc mandou flores ontem”, me alertou com sorriso irônico de canto de boca, a amiga Célia Silva, minha primeira diretora da justiça, a mesma Célia Silva, amiga que as vezes comenta aqui, e que me recebeu em sua casa de praia este ano, onde gravei as cenas finais do meu filme “Melancholy”, esse cujo frame com a coruja hoje estampa minha foto de capa e me acompanhará por muito tempo ainda. Pronto! Já estava eu, nos meus primeiros dias do novo trabalho, na cidade nova, criando um problema institucional entre o judiciário federal e estadual da cidade. Tinha culpa se a já citada magistrada estadual tinha fama de “loba pegadora de novinhos?” Eu, novo no emprego, novo na cidade, recém separado, cabelo abaixo dos ombros, vinte e poucos anos, em homenagem e respeito a tradição, como política de boa vizinhança, de forma altruísta, romanticamente, ofereci em holocausto a única coisa que possuía, meu corpinho. Mas o menor que ela havia sido tutora, e que agora, na maioridade, era seu atual namorado, não compreendeu o gesto da mesma maneira, ruídos na comunicação, algo que acontece desde os primórdios e que na época era resolvido no tacape, a humanidade evoluiu, e desde 1994, pelo menos, se resolvia com flores devolvidas, jogadas de volta na cara do emissor de tal afronta, ato de demarcação de território, seguido por urinar na porta. Compreendida a mensagem, nunca mais vi a dita juíza, aliás não a tinha visto nem antes. “Diacho! E porque mandou flores para uma desconhecida que nunca havia visto antes?” Indagaria o perplexo leitor. Resposta óbvia. Porque eu sou assim. 1994 também foi o ano, no qual a república dos 4 veganos forasteiros foi motivo extra para preocupação dos pais das tradicionais famílias “brazenses”. Aquele matadouro saído do inferno, para o qual convergiam todas as mais imaculadas virgens, seduzidas por criaturas demoníacas que não comiam carne, morta. Eu, acumulador que sou, desde pequeno colecionei tampinhas de garrafa, papel de carteira de cigarro, a do imperador era minha preferida, por causa da faixa, até cds, dvds, vinhos, prêmios e inimigos. Politicamente incorreto, mas na época não existia isso, e minha consciência permissiva me perdoa, no meu simulacro colecionei namoradas, ou fui colecionado por elas. Contei 7, conta de mentiroso, mas não mudaria o número para torna-lo mais aceitável, foram 7 mesmo, que se sucediam em visitas, algumas delas sem os pais saberem, imaginavam que as filhas estavam dormindo inocentemente na casa de amigas, e não nos aposentos de um “Dom Juan” caipira. Sim! Como minha vida inteira é referenciada no cinema, 1994 foi o ano de lançamento de “Dom Juan de Marco”, estrelado por Marlon Brando e um Jonnhy Deep no auge de sua beleza e sedução. E quem estava coincidentemente de cabelos compridos, em forma, intrigante forasteiro, estiloso, “culto” para uma cidade provinciana, e em seu auge particular, transpirando testosterona? Quem tinha feito curso de modelos em Santo Antônio da Platina, pela agência de modelos mais famosa de Curitiba, Casablanca, e desfilava no conhecido trecho chamado depreciativamente como “ramal da fome”, norte velho, ou como querem honrosamente os habitantes locais, “norte pioneiro” do Paraná, estendendo-se para o sul de São Paulo, Ourinhos, Assis e Presidente Prudente? Moá! Finalmente, depois de estrear no teatro amador anos antes em Campo Mourão, casar precocemente, obviamente ser feliz e infeliz no casamento e na vida profissional, quem pode ser feliz casando aos 21 anos, e se formando como Bacharel em Ciências Contábeis? Brigas de chegar ao trabalho todo arranhado, por ciúmes de ter assistido o promíscuo “carnaval na tv” e ter visto fartas e carnudas bundas gelatinosas sambando nos infernais bailes da madrugada da Band? Finalmente tinha retomado minha vida de “artista”, precocemente abortada e transformada num frequentador do religioso e tradicional almoço de domingo em família, que aguentava horrores de assédio moral de um sogro que ostentava “status social” e que por suas frustrações, sempre embriagado, descarregava na família, transformando a vida de todos a sua volta num inferno, cujo único momento de alívio era ser espectador do Programa de Domingo do “Faustão” em sua própria casa, porque se o almoço do domingo se estendesse na casa do sogro, o programa recorrentemente assistido era “Silvio Santos”. Era o inferno! O capeta nos cozinhava pessoalmente em “fogo brando”, espetando-nos a bunda com tridente, só para prolongar o prazer de sentir nosso ranger de dentes quando a carne descolasse de nossos ossos. Amigos/amigas quem não viveu a vida adulta em 1994, não tem a menor ideia do que era. O ano em que não existia internet, que sequer se suspeitava que anos após, ouviríamos os hoje charmosos barulhos de conexão de telefone por linha discada, a velocidade incrível de 512k. Telefones celulares ainda não haviam sido inventados, o máximo de tecnologia era o “bip”, mas de acesso só de ricos médicos, para serem acessados em emergências. Escassos telefones públicos apelidados de “orelhão”, em frente aos quais se formavam filas de consumidores aguardando ansiosamente a sua vez para fazerem uma ligação que só podia se completar com “fichas” de metal. Os computadores mais avançados eram com tela de “fósforo verde”, cujos arquivos eram gravados em fita magnética. Redes sociais, só aqueles aparatos de descanso e balanço, ocupados por mais de uma pessoa esticados na sombra, entre uma árvore e outra. TV fechada era sinônimo de aparelho televisor de no máximo 21 polegadas embutidos em móveis de madeira na casa de milionários. 2010, tão distante, era “o ano que faríamos contato”, não foi, ou não sabemos. Meu maravilhoso filho não programado Rafael, hoje veterano do curso de Ciências Sociais da UFPR, não existia nem no melhor de meus sonhos. Apenas para completar esse cenário caótico de pós-apocalipse, 1994 foi o ano de morte da lenda Ayrton Senna, vítima de um trágico acidente na curva Tamburello, numa corrida de fórmula 1, Grande Prêmio de San Marino, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, na Itália, que tentava desesperadamente vencer o então piloto estreante alemão Michael Schumacher. Acordei cedo naquele fatídico domingo, saí caminhar, ateu convicto desde os 16 anos, inexplicavelmente senti um impulso incontrolável de entrar na igreja católica da cidade, era 8h30min. Entrei. Ao retornar para o hotel da “Nati”, onde estava hospedado, uma espanhola, a “Tati”, sua prima, fã fanática de Ayrton Senna, chorava desconsoladamente por causa do que ainda não se sabia ser, trágico acidente fatal da lenda. Em 1994 o mundo estava de cabeça para baixo, foi um ano tão maluco que foi lançada até uma nova moeda, o Real, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso se elegeu presidente vencendo Lula, o trabalhador, e pasmem, em terceiro lugar, com mais de 4,5 milhões de votos, a extrema direita política do Brasil, arreganhava seus dentes materializada num folclórico candidato médico chamado, “Meu nome é Enéas!!!”, Enéas Carneiro. Dias depois, então presidente profetizou: “Esqueçam o que eu escrevi”. Não alienado, mas insignificantemente alheio a política nacional, embora sentindo seus reflexos, um jovem no vigor de sua juventude, “passava o rodo” nas namoradinhas do interior. A AIDS, no Brasil surgida em 1983, já há 11 anos conhecida, não assustava mais os jovens, pelo menos não os jovens do interior que julgavam-se imunes às doenças, já tínhamos voltado a beijar com vontade, e cometer atos decorrentes dos beijos. Eu beijava muito, e beijava bem, como beijam muito os recém separados e os ex-prisioneiros. O mundo merecia acabar num beijo. Beijávamos em todos os lugares, lugares públicos, privados, bares, restaurantes, cinemas, teatros, cafés, no carro e até em ônibus. Não importava se fosse uma desconhecida, a adrenalina envolvida pulsava mais forte nas veias. Dois nordestinos em viagem turística não acreditavam no que seus olhos acabavam de presenciar, que aquele cabeludo que entrou com um quadro de homem nu no ônibus, cinco minutos de conversa após, estava atracado e aos beijos com a mais linda e alta morena no fundo do coletivo. Caixeta, um dos meus amigos veganos, em vão tentava explicar aos infiéis incrédulos: “Ele é assim”. O modelo para o quadro de nu artístico que levava no ônibus era eu mesmo, imortalizado nas telas pela doce artista plástica Léa, de Santo Antônio da Platina, bonita e ardente loira que conheci meses antes, em um desfile promovido pelo meu “agente” local “Grego” de Gregório, meu bom amigo, também cabeleireiro do salão que ele costumava chamar carinhosamente de “A Gaiola das Loucas”, o produtor cultural mais “ativo” da região, e para onde convergiam todos os “artistas” do norte pioneiro do Paraná. Paradoxalmente com todas as desgraças que ocorriam em 1994, existia também um mundo romântico de artistas onde a palavra “homofobia” ainda não tinha sido inventada e não constava do dicionário, os radicalismos retrógrados ainda escondiam-se no fundo mais profundo dos armários. Era algo que causava vergonha. Chico Buarque e Caetano Veloso podiam cantar livremente na tv e eram considerados unanimemente astros com direito até de Caetano, usar saia em Rede Nacional, e não ser apedrejado ou ser uma ameaça a tradição de famílias cristãs, afinal era um artista, no tempo em que se respeitavam artistas, e artistas eram artistas, não existiam as “celebridades” instantâneas cultuadas por simplesmente existirem. Naquela época para ser artista, mesmo já existindo Duchamps, era necessário mais do que empinar penico rosa e criar falsas narrativas de perseguição. Era uma época em que não existia a “pós-verdade”. Um tempo romântico que ficou embolorado nas memórias, e que a baba raivosa do arreganhar de dentes de cães fez desaparecer na densidade do nevoeiro. Nos finais de semana, nos dávamos ao luxo de sair da província de Wenceslau Braz, passar por Santo Antônio da Platina e Jacarezinho, e terminar a noite felizes nas boates de Ourinhos ou Assis, todo mundo pegando todo mundo. Em Presidente Prudente fui apresentado pela primeira vez a delícia gastronômica “Batata Suíça”, tb a algumas outras delícias que não precisam ser confessadas. A morena desceu do ônibus em Siqueira Campos, uma cidadezinha menor que Wenceslau, e que ficava num buraco. Não sem antes trocar telefones, e promessas de visitas, que nunca ocorreram, sem motivo aparente. Esses anos eram tão loucos, ou pelo menos foram para mim, que em 1996, já como “artista” do curso de Artes Cênicas da Faculdade de Artes do Paraná e residindo em Curitiba, depois do retorno de viagem ao interior, encontrei no ônibus, uma vizinha minha do edifício da “Galeria Tijucas”, centro de Curitiba, de frente para a Boca Maldita, de onde o corpo de bombeiros fazia exercícios de segurança simulando resgate do prédio e descida pelo lado de fora com as vítimas num “rapel”. A vizinha, descendente de japonesa, minha tara, e paixão reprimida desde a retinha Noemi, da 6ª série do ensino fundamental, acabou sendo, meu único acontecimento extraordinário sexual pelas bandas do oriente. Meio enferrujado na gramática, depois de transcorrido um terço da viagem, ousei ingressar em conversas mais “insinuantes”. Sucederam-se os melhores 300km de viagem que já tive na vida. Luxuriantes trocas de carinhos e manipulações mutuas. Já em nosso prédio, de aparente felicidade mutua tb, nos despedimos no que acreditava eu, ser o prenuncio de um futuro promissor de incursões ao mistérios orientais que ensaiava aventuras de enrubescer a vizinhança. Nunca mais a vi. Mudou-se dias após, jogando-me num abismo de frustrações do qual não sai até hoje. Muito embora tivesse várias outras aventuras, o cérebro, criador de amarras e armadilhas, instiga-nos a lembrar sempre daquilo que não foi, daquilo que não ocorreu, da história não vivida e que, não acontecerá jamais. Jamais beijarei a Noemi da 6ª série. Jamais repousarei na cama da descendente oriental que não lembro o nome, após uma luxuriante noite de prazer, que nunca ocorreu, nem ocorrerá. Jamais darei o beijo não dado, nem sentirei o calor do corpo que não me quis. Esfriarei até morrer. Conto isso em razão de me ocorrer essa lembrança, que já estava perdida, mas ressurgiu entre névoas. Recentemente desci para o litoral, para a casa de um amigo que, na véspera entregou-me as chaves da casa e disse que por imprevisto no trabalho, se atrasaria por uns dias, e que não me assustasse se uma família de amigos aparecesse, a casa era generosa, tinha vários quartos e não havia o menor problema em conviver uma semana com outras pessoas. É bom conhecer gente nova, histórias novas, jornadas diferentes. Caminhei solitariamente pela praia no primeiro dia. Só eu e a areia trazida pelo vento no segundo. Na terceira noite, no meio da noite, dormindo sozinho num dos quartos de hóspede com duas camas, acordo com um barulho na madrugada. Mesmo tendo tomado a quetiapina que me derruba, amortecido e cambaleante levantei da cama num esforço hercúleo e fui até a porta verificar se tinha lembrado de trancá-la. Sem energia suficiente, desisti no meio do caminho e entrei em um dos banheiros da casa, o dos visitantes, óbvio, aproveitar para urinar, sentei no vaso, pq há muito, desde o último relacionamento que durou 17 anos, por higiene e costume, me transformei em “menininha”, só faço “xixi” sentado. Não sei ao certo, mas tive um apagão no assento do vaso. Não sei por quanto tempo, mas o suficiente para perceber que tinha dormido ali por pelo menos alguns instantes. Quetiapina derruba mesmo. Voltei para o meu quarto de hóspedes e as camas estavam unidas e alguém dormia nelas. Um corpo estava na diagonal e totalmente embaixo das cobertas. Meio zonzo dos remédios, exaurido nas forças, nem sei o que pensei e se pensei. Era madrugada, entorpecido, a única coisa que me motivava era voltar a dormir, e minha cama, parcialmente ocupada e na diagonal. Não tive dúvidas, a minha sobrevivência dependia do meu sono naquele espaço restante da cama e, espaço existente é para ser ocupado. Ocupei, apaguei. Quanto tempo após não sei. Mas acordei, se é que o estado adormecido que estava pode ser considerado acordar. Semiconsciente senti um corpo junto ao meu, em conchinha e por trás, em suaves movimentos repetitivos na altura da pélvis, certamente se não estivesse sob efeito das drogas teria pulado da cama, mas quetiapina é forte. Não conseguia sequer me mexer ou abrir os olhos, muito menos esboçar alguma reação, fosse qual fosse. Os movimentos repetitivos do corpo estranho às minhas costas aumentaram, não tinha dúvidas de que algo acontecia e sem meu consentimento prévio. O suave perfume de alecrim tomava conta do ambiente, era tão doce, nada que fosse doce assim podia me fazer mal, pensou o diabético não controlado. Sussurros inaudíveis acompanhados de gemidinhos ao pé do meu ouvido, estremecimento em êxtase do corpo atrás de mim, meus pelos da nuca eriçados, única reação antes do novo apagão. Mais um lapso de escuridão e sou mexido pelos braços numa tentativa vã de me acordar, não surtiu efeito. Acordei sozinho na manhã seguinte e sozinho permaneci durante o resto da semana de estadia, eu, a areia e o vento. Meu amigo, dono da casa da praia disse que a família tb não foi, e que naquela semana fui o único e solitário hóspede. Nunca mais tomo quetiapina.

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