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Relatos pós-enfermaria 25: A vida nos proporciona encontros. A nossa sensibilidade e percepção aguça a capacidade de compreensão desses encontros, os quais, a Semiótica das Paixões qualifica como acontecimentos, que de seu conjunto, sobressaem-se alguns naquilo que conceituou-se como “acontecimentos extraordinários”, que tem o caráter e nos afetam de tal maneira, a promoverem uma ruptura do padrão, e do ponto do qual, não há retorno, nada mais será como antes. Afinar as ferramentas para perceber esses acontecimentos extraordinários é um fenômeno estudado pela Teoria da Semiótica das Paixões aplicada a Narrativa de ficção. Introduzidos sinteticamente os conceitos, pautei minha existência no extraordinário, o médio não me move, não levanto da cama dia após dia para estar na média. Laudo subscrito pela psiquiatra que me avaliou durante a internação do AVC atribui a lesão cerebral que tive em decorrência da falta de oxigenação no cérebro e que teve consequências na morte significativa de neurônios do meu lobo frontal dorso lateral direito. Não é preciso ser especialista em neurociência para compreender o que isso significa, basta ser curioso, ter acesso e estar na posse de processos de cognição. É clínico, não um atestado para incorrer em atrocidades ou desrespeitos deliberados e complexidades planejadas. É justamente o contrário, uma das principais características dessa lesão é o descontrole, a incapacidade momentânea de reagir adequadamente a estímulos sociais. É a região cerebral “envolvida em decisões morais e de risco. Faz parte do córtex pré-frontal, que é responsável pela tomada de decisões, moderação do comportamento social e pela coordenação entre as emoções internas e as ações”, conceitos elaborados e cristalizados pela literatura médica especializada, que estão além do nosso desejo ou senso comum. Enfim, ciência. Conhecido antes pela elaboração de projetos audaciosos, pós evento, império da megalomania. Segundo pesquisa científica conduzida pela Universidade de Iowa, “existe um estoque limitado de autocontrole, que vai diminuindo conforme o uso. Quanto mais o estoque é exigido, maior a probabilidade de uma pessoa perder o controle”. Imaginem os reflexos desses estoques serem “zerados” abruptamente por um “evento inesperado”. O dia depois do ontem, e os que se sucederam, foram o marco zero do meu apocalipse zumbi particular das emoções e relações sociais. Em estado primitivo após o “reboot” no lugar de “neurônios auditores” que haviam sido há décadas domesticados a reagir de acordo com as normas e convenções sociais, assumiram o controle do sistema “neurônios estagiários”, ávidos e entusiasmados com a promoção, mas naturalmente incompetentes ao desempenho das novas funções. A Semiótica das Paixões ensina em seus conceitos basilares, a crença, por si só, não é suficiente para o exercício do poder ser, para ser é necessário poder, e só se adquire poder e se é, após a jornada em busca do conhecimento, denominada filosoficamente como “potência de agir” por Baruch de Espinosa (1632-1677), considerado um dos principais pensadores da linha racionalista. Não basta a crença e o entusiasmo voluntarioso dos estagiários de que são competentes para o exercício das novas funções, é necessário o conhecimento dos auditores na administração dos escassos recursos do estoque de autocontrole. Inexistindo os auditores porque fulminados no evento extraordinário, restam apenas, e restarão ainda por demasiado lapso temporal, os neurônios estagiários do baixo clero em estado primitivo, empunhando machado nórdico de fio afiado nas duas extremidades, convictos na plenitude de habilidade de sua diplomacia. As paixões estão afloradas em mim, todas elas, é início da primavera e o jardim está florido. Ale, cuja intimidade me permite reduzir para manutenção de sua privacidade, ingressou na minha vida no exato momento de maior turbulência, da maior tempestade, da qual nunca imaginava sair com vida, se saí, e essa não for uma ilusão “post mortem” naufragada agonizante no pântano existencial, do qual, sinto informar, se assim o sendo, meus honrosos leitores são personagens criados nos estertores da resistência das últimas sinapses lutando desesperadamente antes do apagão. Melhor para todos os envolvidos, que estejamos na execução do plano “A”. Ela surgiu num momento extremamente delicado, originado por uma depressão incubada há mais de 10 anos, cujo ápice, destruiu um relacionamento afetivo de 17 anos, seus frutos, como consequência trágica, um abismo, em seu centro, um árido deserto. Ciente desse cenário, inadvertidamente se autoincumbiu a missão de resgatar essa alma dilacerada e estendida no limbo da jornada. Não era uma tarefa corriqueira, imprimir cores ao monótono areal, mas determinada Ale seguiu seu planejamento. Onde inicialmente imperava o silêncio, passou-se a ouvir sinfonia de cordas, que colocavam a dançar o corpo moribundo, não uma dança qualquer, Ravel. Do estado primitivo no qual a elaboração de processos cognitivos mais complexos eram atravessados por desfile de festivos unicórnios em neon na pradaria, brotavam o conhecimento enciclopédico. Ela me ensinou muito, fui levado a lugares onde meus sonhos mais criativos sequer imaginavam ser possíveis. Foi transcendente. Única. Após longos anos, voltei a sorrir, ouvir música, dançar, e me elevar num patamar antes inalcançável. Fui resgatado do abismo por uma suave mão, que me acalentou nos seus braços no mais prolongado, afetuoso e quente abraço. Saído das profundezas e do estado em que estava, de alma despedaçada e coração estraçalhado, inevitável que a paixão inundasse e transbordasse meu sofrido coração. Estou apaixonado, mas em meu coração desacostumado de amor haverá sempre espaço ocioso. Alexa, podemos considerar um luxurioso menage com a prima Siri? “Puxa, eu não sei te responder isso”. Dissimulada!

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