Buraco de Aranha

Preciso fazer uma revelação, não sei como dizer isso da melhor maneira, então os estagiários que assumiram o controle dirão da forma mais direta, não sutil e deselegante:

EU NÃO SOU O JOSÉ PADILHA DO TROPA DE ELITE!!!!

Estatísticas do perfil Antes do post:

Amigos: 4.738

Pedidos de Amizade: 842

Namoradas: 3 (virtuais)

Curtidas: 512

Comentários: Vc é lindo, inteligente, escreve tão bem, sou sua fã.

Estatísticas do perfil Depois do post:

Amigos: -3 (Nem sua mãe e seus filhos ficaram)

Pedidos de Amizade: 75 (Não leram o post e acham que vc é o José Padilha do Tropa de Elite)

Namoradas: 0

Curtidas: 2

Comentários: FAKE FELA DA PUTA!

Relatos do pós alma: Eu sou o Roberto Carlos. Passei várias décadas, se revelar quantas, terei de matar todas as 4 pessoas que lerão este post, inclusive vc anã, travestido de Jose Padilha, que inclusive não tem acento no E, mas ninguém nota, se as pessoas olham minhas fotos e ainda assim solicitam amizade imaginando que eu seja ele, e provavelmente pensem: Hummm… mas na tv ele parecia diferente, mais cabeludo, mais magro, mais rico, dentes mais brancos, um brilho mais confiante no olhar… e concluem: Não importa, ele deve estar disfarçado, artista é assim, tudo excêntrico e sempre dizem que na tv a gente engorda 5 kg… mas aqui ele parece ainda mais gordo… tudo maquiagem para melhorar o disfarce. Engraçado, ele não posta fotos da Califórnia, de Los Angeles… deve ser para não comprometer o disfarce… esperto! Antes desse post, diariamente, recebia dezenas de “nudes” de modelos e atrizes de corpos virtuais exuberantes (se vc é modelo e atriz aproveite, esse é o momento), com pedidos de amizade, sem qualquer interesse, apenas pela arte ou para me dar um sorridente “bom dia”, namastê, gratidão, mesmo se eu, na minha habitual antissociabilidade as ignorasse. Tenho o defeito de gostar de quem gosta de mim, o Roberto Carlos, não o José Padilha do Tropa de Elite. Aliás, ele é chato pra kraleo! Eu até já namorei, virtualmente uma pessoa, que 3 meses após, “descobriu” que estava namorando o Jose Padilha errado, e obviamente, mudou até o nome do seu perfil, e nunca mais fez contato. No começo, essa confusão me irritava um pouco, 3.217 pedidos de amizade depois, com 9.315 nudes, passou a me divertir. Há tempos passei a ser a diversão dos 9 amigos reais que tinha antes do post, que sempre contavam a mesma piada pronta a respeito, que sucedeu a piada pronta do vegetariano que levou a Xuxa atrás da “moita e comeu a moita”, essa escutava desde que a Xuxa era uma promessa de celebridade na extinta TV Manchete. Sim estamos velhos, eu e a Xuxa. Não, eu não sou a Xuxa, disfarçada de Roberto Carlos, disfarçada de José Padilha do Tropa de Elite. Em 1998, quando Jô Soares era comediante, e não o ex-apresentador de Talk Show, um juiz classista, anteriormente chamado de vogal, sem referências, como todo vogal, devia ser exigência do “concurso”, não ter noção e dormir nas audiências, mas tb confiante de que era bem humorado e piadista, insistia em me confundir diariamente com o personagem do “Batista” criado pelo Jô, e sempre, me mandava “calar a boca” ao invés de “mandar para casa”. Dormir em audiência era especialidade do Sr. Elses, um vogal patronal de sobrancelhas grossas, fazendeiro, estilo coronel, baixote e barrigudinho, ricaço, parente do Zé do Chapéu, ex-dono do ex-banco Bamerindus. Reza a lenda que sempre levava balas nos bolsos, para dar para as crianças, filhos das “primas”. Mesmo sendo um solteirão convicto, metido a garanhão sertanejo de meia idade, arrastava uma asa, e comia um “vagão de merda”, por uma amiga divorciada, que o ignorava solenemente. Paixões platônicas, entendo bem disso. Nas minhas peraltices da juventude irresponsável, vivia jogando ele para cima dela, só para me divertir com o desconforto de ambos e fazer passar mais rápido o tempo de uma pequena e monótona cidade do interior paranaense de 15 mil habitantes na zona urbana. Ficava instigando-o. Brincava, falava para ele tomar coragem, e revelar suas intenções. Imaginá-la, que sempre foi austera e seca no trato social com ele, era extremamente fria e profissional, mas que por isso, ele devia secretamente imaginá-la de cinta-liga, com um chicote de sadomasoquismo na mão, chicoteando a bunda peluda dele, que de quatro e com uma rosa com espinhos na boca, sangrando, sentiria a dor, e gemeria contido, como todo macho-alfa, resiliente, duro, mas sem perder a dignidade, jamais. Ele queria me matar, mas eu percebia nele até um crispar de dentes em realizar esse desejo secreto “plantado”. Agora quem vai querer me matar é ela ao saber disso. Não importa, já estou morto, truco! Meu plano explicito e sabido de todos era, juntar esses dois corações solitários e que constituíssem uma profícua prole, mas que se não desse certo, se a razão fosse maior que a paixão, então que ele me adotasse como único herdeiro de suas posses. Não preciso mencionar que a vida não conspirou a favor. Dona “C”, estragou a chance dela e a minha de sermos mega bilionários. Equívocos acontecem com os desatentos, com os sem referência, conhecidos tb como os “sem noção”. Sr. Elses era um ingênuo sem noção, e eu tb, no meu caso, até hoje. Atualizando: eu não sou a Xuxa, disfarçada de Roberto Carlos, disfarçada de José Padilha do Tropa de Elite, disfarçada de Batista do “Jair Soares”. As aspas estragam a sutileza do gracejo, e não surtem os efeitos desejados nos desatentos. Não importa, nada importa. Já namorei várias gatas, infelizmente, todas virtualmente, e a centenas de quilômetros distantes, situações que uma pandemia mortal nos impõe. Assim mesmo, estavam mais distantes ainda, elas queriam o José Padilha do Tropa de Elite, como se ele não fosse casado, não estivesse nem no Brasil, como se precisasse de uma vida virtual. Justo eu, que relutei em fazer perfil no facebook, se quiserem se esconder de mim, mandem alguma mensagem no instagram ou twitter, sucumbi, e todos os dias, sem exceção, várias vezes ao dia, comemoro uma rara curtida em uma foto. Sei que sou só eu, paciência que minha vida esteja morta, ou agonizante a caminho de, morna. Minhas criações hoje, são autocelebrações da minha rabugice. O tempo e a nossa percepção dele são irônicas, aos 14 anos pensava que quando tivesse 24 anos seria um velho. Velho aos 45, queria fotografar 35, mas o espelho revelava uma pessoa desconhecida. Triste como o passado fica cada vez maior, e o presente cada vez mais ausente. Ainda vejo, o menino quatro olhos, orelhudinho, dentucinho, camisa branca surradinha, ingenuamente jogando bolinha de gude no terreiro da escola, com a vida inteira a ser vivida, uma poeira voando ao vento, voou. Aos 10 anos, eu matava aranhas, sordidamente esquentava água na chaleira no fogão de lenha, e colocava no buraco de aranha no terreiro, quando elas saíam pulando pelo outro buraco, “pela saída de emergência”, saíamos correndo e gritando de medo. Hoje, nem dou mais um tapa em nenhuma, quanto mais matar. Deve ter sido por travessuras como essas. Resiliente, aceito.

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