Couve

Relatos pós Enfermaria 25: Upgrade Leito 12. Uma pasta penne ao molho alho e óleo regado ao shoyu, refogado de couve manteiga e ovos mexidos com cebola, milho e azeitonas. Há uma semana seria impensável, o menu era antibióticos e anticoagulantes de manhã, à tarde soro e remédios para dor, variando a noite para mais anticoagulantes e mais antibióticos. O problema da gerência do spa era a falta de criatividade, no dia seguinte tudo igualzinho de novo e de novo. Enjoava e os antibióticos davam sua contribuição ao enjoo. A Dona Idalina foi minha vizinha da esquerda por um dia. Uma linda Vovó negra de cabelos totalmente brancos, lembrava minha avó Zelina. Conservava seu sorriso nos lábios e uma altivez incomum em hospitais. Saturação 99%, pressão 12:8 e glicemia 65, índices que jamais alcançarei. Se deixassem saía dali caminhando, tentou umas 5 vezes nesse período de 24 horas de vizinhança. Óbvio que me encantei por ela desde o primeiro momento e puxei papo, adoro boas histórias, ela devia ter várias, aprendi a gostar de ótimas histórias desde criança quando sentado no “caixão de lenha” esquentava os pés ao redor do fogão e ouvia atentamente minha avó contar do “Michardo”, o lobisomem de Carazinho, sua cidade natal, ou o monstro arrepiante de Nonoai, que fazia calafrio na espinha do valente mais valente da cidade. Inconscientemente foi ali, Dona Zelina que direcionou minha vida para ser um contador de histórias, preferencialmente de terror, infelizmente não com tanta verve e eloquência quanto ela, negra filha de português com índio, educada em colégio de freira até a 4ª série, o máximo que uma mulher poderia almejar na década de 1930, uma época que não existia cadernos e que as lições eram feitas em “lousa”, um pequeno quadro verde, pouco maior do que um caderno, onde as lições aprendidas eram apagadas para dar espaço para a próxima. Foi no colégio de freiras que minha avó aprendeu a cozinhar. Schmia, cuca, grostule e outras delícias. Não tão delícias quanto a delícia que não mereço, mas um dia virá. Não se trata de mérito, é de sentir… e eu sinto coma alma despedaçada, em mil cacos. Almas despedaçadas em mil cacos sentem o choro de outras almas despedaçadas em mil cacos a mil anos. Não há distância que separe, nem mil quilômetros. Existem delicias num outro nível, no nível avó, senhorinha, querida, amada, que tanto me faz falta. Na noite em que ela morreu, apareceu no pé da minha cama a 500km de distância, numa casa e numa cidade que ela nem imaginava como e onde eram. Mas ela cumpriu a promessa e as ameaças que fazia quando o neto era desnaturado: “Quando eu morrer eu venho puxar seu pé”. E veio, não puxou, afetuosamente só ficou me vendo dormir, velando meu sono, como fazia quando era criança, mas desta, pela última vez, cuidando de seu netinho e quando acordei, na madrugada, apenas sorriu e se foi. Ela ainda me visita algumas vezes durante as madrugadas, em casas e lugares onde nunca imaginei que iria estar, ainda assim ela vem, vela meu sono, sorri e vai. Sinto a sua falta, assim como ela sentiu minha ausência durante os anos loucos em que a vida te afasta das pessoas queridas, daquelas que realmente importam, enquanto loucamente, no seu simulacro existencial, vc imagina estar vivendo. Michardo não gostava de ser chamado de Michardo, não lembro mais o porquê. Aos quatro anos no caixote de lenha da cozinha da casa da fazenda, minha avó menina, ouvia sua mãe contar as apavorantes histórias de Michardo, mais apavorantes que meus erros de gramática. “Não acreditam?” Dizia minha bisavó para as crianças na casa. “Escutem!” Ao longe rompiam o silêncio da noite, latidos de cachorros em furiosa briga. Iam aproximando e ficando mais altos os latidos e choramingos dos cachorros que estavam levando a pior. “Venham ver.”. Lá se foram as crianças atrás da opulenta bunda do corpanzil da portuguesa mestiça índia com negro. Imagino para minha “bisa” um corpo de “Tia Anastácia”. Ela morreu quando tinha menos de dois anos e minhas memórias daquela época se restringem a uma caixa enorme de papelão, com muitas caixas de remédios dentro, eu de fraldas, fazendo o que mais adorava fazer, jogando todas as caixinhas de remédios para fora da caixa, ria infantilmente no final, sabendo que meu tio avô, farmacêutico, pacientemente colocaria todas as caixinhas de volta dentro da caixona, e eu, começaria novamente jogar tudo para fora de novo, e de novo, e de novo, no jogo mais intrigante e imprevisível que um menino de dois anos na década de 1960 pode participar. Fascinante! Poderia fazer isso a vida inteira! E fiz. Uma sequência de brincadeiras que se repetem e repetem ao longo dos anos. Erros, erros e erros. “Falhar, falhar de novo. Falhar melhor”. Minha bisavó levantou e posicionou todas as meninas no alto da janela, e os latidos cada vez mais próximos. “Esperem…”, os latidos mais próximos. “Esperem…”, os latidos mais próximos. “Quietas…”. Mal podia-se ouvir as pequenas respirações das três menininhas de vestidinho de “chita” no alto da janela. Olhinhos esbugalhados quando viram quatro cachorros grandes, brigando, mordendo, e sendo mordidos por um cachorro maior ainda, branco, presas grandes e brancas, que mordia impiedosamente e arrancava pedaços dos outros cachorros. Respingos de sangue no pelo branco. “Michardo!” gritou a minha bisavó. Foi a senha para uma virada de cabeça do enorme cachorro branco em direção da voz. Olhos arregalados em fúria, presas arreganhadas em rosnado hostil. Já não importavam mais as mordidas dos outros cachorros. Desabalada carreira daquele lindo e enorme cachorro branco, que a cada passo deixava visível os sinuosos músculos de suas pernas. Patas fincadas no chão, projetando o salto em direção à janela. Os olhinhos apavoradas da minha avó, antes de se fecharem atrás das mãos, viram apenas as mãos de reumatismo da minha bisavó, ter destreza apenas para puxar a aba de madeira da janela, que fechou-se pelo trinco após o estrondo causado pelo baque do contato que estremeceu toda a parede. Dedo sobre a boca da minha bisavó, indicando o sinal de silêncio para as meninas de olhos esbugalhados e transparentes de medo. O rosnado de frustração só terminou com mais latidos de briga dos cachorros, aos poucos afastando-se, e ao longe prolongando-se pela madrugada inteira. Meus pelos eriçam toda vez que lembro da história contada pela minha avó. Posso sentir o medo que ela sentiu. Suas pequenas mãos suando frio. O engolir seco da saliva. O arrepio na coluna. Eu tenho medo de lobisomem até hoje. Meus medos e monstros não me paralisam, eles me fascinam e me mantém vivo.

Comentários estão fechados.