Dente do fundo

Relatos pós Enfermaria 25: Onde não havia glamour, mas sofrimento e dor. Entre Diarreias, Epifanias e o Profundo Verde de Seus Olhos. A Fabulosa História de um Doce José, Amortecido e Sem Acento, em Direção a Luz no Seu Leito de Morte, Esvaindo-se em Cafonices e Autopiedade, Incinerado Pelas Labaredas da Fogueira da Inquisição. Todos temos um dente no fundo da boca, aquele antes dos dentes do siso, os últimos quatro dentes molares que nascem já próximo da idade adulta, e que no caso, se tornam os últimos mesmo, mais especificamente no meu caso, retirados todos no mesmo dia. Foi bonito de ver a minha dentista, pedir ajuda aos universitários, especificamente o seu sócio “cavalão”, que sem cerimônias, pegou seu boticão, e extraiu para sempre o meu juízo até a raiz. Se existisse culpa num ateu não cristão, a culpa seria dele. Há uns três dias estou com um inconveniente fio dental vermelho, sabor canela, enterrado no vão, lá no fundo, entre uma banda e outra. Todos temos um esqueleto ou outro escondido no armário. Um tio inconveniente no churrasco de fim de semana a falar sandices para seus amigos convidados. Vegano, fisicamente estou salvo. Desse mal não morro. Mefatoricamente, submeto minha carcaça fétida às agruras dos psicologismos báratros encrustados na minha alma, amalgamados como um broto de arbusto qualquer na parede pedregosa de um penhasco, equilibrando-se a beira do abismo em busca dos vitais raios solares. O meu lugar de refúgio intitula-se ironicamente “Enfermaria 25”, é para onde venho me esconder e procurar abrigo de tempos em tempos, quando não me sinto seguro na selva. Os fantasmas dos esqueletos no armário são tantos, que para minha sorte, a chave está sob guarda dos “neurônios auditores seniors”, se tivessem nas mãos tresloucadas dos estagiários do baixo clero em estado primitivo liderados pelos unicórnios em neon, seria uma festa, o estrago seria definitivo, que não haveria “martelinho de ouro” que desse jeito. Seria swing hardcore português. Essencialmente de coração duro, o que me restou de leveza nessa jornada, esvoaça por aí, sutil, flutuando como uma pena sobre o concreto. Utópica e ao sabor do vento. Deslizando como letras ajuntadas sem sentido num papel branco. Maculando com seus rabiscos a imaginação pura de quem se permite viver na ingenuidade de um mundo surreal. Presos nos nossos simulacros existenciais seguimos todos, vivendo de espasmos delirantes de fragmentos do ideal, mas o fio dental vital arrebentado permanece lá no fundo, no escuro, hereticamente unido as bactérias, deliciando-se em prazeres com o inimigo, enquanto o mau cheiro instala-se lentamente e sem aviso. No escuro e à espreita estão nossos monstros, nossos fantasmas, nossos esqueletos, nossos medos, nossas frustrações, nossos sofrimentos, nossa dor. Tudo não passa de ilusão. Diria Osho que nossa dor está nas memórias do passado, e numa projeção de futuro, ambos inexistentes. Viver o presente é o que importa, que seja presente, que seja um presente a cada instante. Que seja continuo. Que seja um voo de asas sobre o oceano ao som de Rod Stewart. Que seja uma sinfonia de acordes na guitarra virtuosa do Santana. Que seja Nina Simone. Que seja extraordinário. Que seja música, poesia e vento.

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