Deserto

Relatos pós Enfermaria 25: Onde não havia glamour, mas sofrimento e dor. Entre Diarreias, Epifanias e o Profundo Verde de Seus Olhos. A Fabulosa História de um Doce José, Amortecido e Sem Acento, em Direção a Luz no Seu Leito de Morte, Esvaindo-se em Cafonices e Autopiedade, Incinerado Pelas Labaredas da Fogueira da Inquisição. Quando as palavras entalam na garganta com os soluços, eu fujo para morrer afogado no mar de minhas lágrimas. Secas ainda no deserto árido do meu rosto. Não me afogo, não morro, soluço em silêncio, pranteio a dor, de novo, e de novo, e de novo, até quando? Meu corpo não aguenta mais ser exposto ao excesso de verdade. Dormir na ilusão e acordar na verdade é demasiadamente cruel, mesmo depois de décadas. A única presença que não se ausenta, invariável, imutável, oscilando na permanência, como a rotina de uma onda, que arrogantemente altiva, tem destino certo, quebrar no raso da areia da praia, ou na pedra, mas quebra, sempre! A dor é recorrente, redundante. Dilacera, mutila e faz fissura na alma. Imperfeita, sem conserto, sinfonia de acordes dissonantes, desarmônicos, atravessados. Até quando? Por quê? Pergunta roucamente em looping meu stalker Edward Louis Severson III, desde 1991, acompanhado dos acordes de Stone Gossard. Eddie, eu não sei, jamais saberei. Só sinto, como sinto, só. Em outra vida, um medíocre, autocomplacente e autointitulado “poeta”, ousou imaginar uma criação que a noite saía da tela, de tanta perfeição, a obra, inconformada com a bidimensionalidade tornava-se escultura, e a escultura tornava-se carne e a carne dançava deslumbrantemente até desintegrar com o primeiro raio de sol, restando o quadro, apenas uma tela branca, vazia, sem vida, sem nada. Delírio de um não poeta, não pintor, não artista, apenas um corpo à deriva. A dor do vazio, do naufrágio, da ausência, da ilusão desintegrada é profunda. Viver na verdade e ter de conviver com a dureza dela é foda! Cicatrizes se amontoam umas sobre as outras na carapaça que esconde a fragilizada carcaça. Minha alma não aguenta mais tanta fratura. Não aguento mais viver na dor. Exaurido, meu corpo não aguenta mais viver outra vida, das tantas que emergiram das cinzas. Só escombros. Demolição. Ordinária, violenta, brutal demolição. A dor que eu sinto, eu sinto. Amargo, deserto, sem poesia, seco, choro. Sozinho, na escuridão, morro mais uma vez dentro de mim.

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