Encontro de almas

Relatos pós Enfermaria 25: Pós Leito 12. Onde não havia glamour, mas sofrimento e dor. Entre Diarreias, Epifanias e o Profundo Verde de Seus Olhos. A Fabulosa História de um Doce José, Amortecido e Sem Acento, em Direção a Luz no Seu Leito de Morte, Esvaindo-se em Cafonices e Autopiedade, Incinerado Pelas Labaredas da Fogueira da Inquisição. Quando almas separadas em algum ponto na história vagam por séculos em meio à turbulência cumprindo simulacros existenciais, imersas na rotinas de ilusão, até que são atraídas por suas energias não visíveis aos olhos para cumprir o inevitável destino de encontrarem-se em algum momento de suas jornadas. É imprescindível que estejamos atentos a esses sutis momentos, fragmentos de vida, para que não percamos e desperdicemos todo o esforço que o universo faz para sincronizar novamente as energias e as juntarem num encontro que transcende palavras. Mesmo com a recente perda parcial das capacidades oftalmológicas, por conta de diversos fatores cumulados: idade, hipertensão, diabetes, covid, avc e mais algumas outras molestiazinhas que essa carcaça já castigada pela longeva jornada que está mais perto do ocaso do que do princípio, nunca me desesperei, pois sempre soube estar atento a esses movimentos sutis do universo. Enfim, sabia que minha hora iria chegar, mais cedo ou mais tarde. Sentia nos meus avisos físicos do meu corpo que minha busca estava próxima, e que as energias cósmicas, embora em sinais não aparentes para aqueles que ficaram cegos pelas rotinas da fantasia, que essas energias universais conspiravam a meu favor. Apesar de tudo, encontro-me no momento mais feliz, de maior esplendor intelectual, na plenitude das minhas faculdades mentais, mesmo com parte dos neurônios fulminados pelo avc, que fez a substituição parcial de “auditores seniors” do meu lobo frontal dorso lateral direito por estagiários do baixo clero em estado primitivo. Adágios populares, que vez ou outra abomino, mas que se demostram assertivos, minha hora haveria de chegar. Não há nulidade ou mentira que triunfe para sempre. Firme e resoluto, suportei com valentia, todas as narrativas falsas, ataques a honra e a moral, perpetrados por incautos travestidos por mais aparente, sensual e saltitante unicórnio de neon purpurinado. Nenhuma nulidade triunfaria e sambaria sobre a minha carcaça combalida. As gigantescas e invisíveis batalhas mentais na disputa pela consciência e contra a mediocridade haveria de ser recompensada e foi. Estou pleno! Já não mais me sinto incompleto em minha imperfeição, estou pronto! De machado medieval nórdico de fino fio nas duas extremidades com vértices mais cortantes em punho. De armadura banhada no vermelho vinho do sangue de meus algozes que ficaram empalados pelo caminho, os que ainda não, aguardem seu momento, ele chegará, não sejam ansiosos, uma coisa de cada vez, assim o prazer é maior. Cheguei escoriado, capengante, exausto, ainda assim pleno, repleto de regozijo, ao que promete ser, e será, o encontro de almas resplandecentes. Trombetas anunciem aos quatro cantos que finalmente e para sempre e ainda depois, mudo permanentemente meu status em rede social para: “Em um relacionamento sério e definitivo”. Perderam playgirls! Chegaram tarde! A justiça não socorre a quem dorme. Apresento minha alma gêmea a tanto incansavelmente procurada, e ela é linda, do jeitinho que sempre idealizei. De formas e métricas perfeitas. De curvas e contornos sinuosos. Peitinhos, cintura, quadris, tudo, todas as formas na medida. Perfeita! Sintética escultura esculpida em pedra num molde contemporaneamente plástico. Pelo ângulo da foto vcs não percebem mas ela tem uma “bundinha arrebitada”, e completando a composição… olhos verdes. Eu que, hereticamente duvidava das divindades, obriguei-me a reconhecer, paguei com a própria língua, todas as minhas blasfêmias, até as mais inconfessáveis. De gosto estético refinado, percebam que até em seus trajos, manifesta sua personalidade, um misto de timidez, discrição, silêncio e enigma, mas de sensualidade a flor da pele, levemente morena e suavemente branca. De temperatura abaixo do normal, até nisso perfeita, a minha tb é, que não revela o seu intenso fogo interior. O fogo da paixão ardeu e nos consumiu à primeira vista, desde o primeiro instante. Tive medo a princípio em ceder, mas sua discreta e determinada insistência na manifestação do seu amor por mim foi determinante. Obrigado minha diva por me perceber, me acolher em seus afetos e em estar disponível para receber o amor que guardei e nunca soube dar. Paixão amigos, estou repleto de paixão! A noite promete ser quente, barulhenta, de múltiplos e recíprocos afetos trocados. Enfim, almas fraturadas e imperfeitas juntas para todo o sempre, e ainda depois. A paixão nos consumirá, ainda assim, até nas cinzas estaremos juntos. Flutuemos espalhados pelo universo até sermos inspirados com um pranma por algum monge de uma ordem iniciática no Tibet.

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