Espectro

Relatos pós Enfermaria 25: Onde não havia glamour, mas sofrimento e dor. Entre Diarreias, Epifanias e o Profundo Verde de Seus Olhos. A Fabulosa História de um Doce José, Amortecido e Sem Acento, em Direção a Luz no Seu Leito de Morte, Esvaindo-se em Cafonices e Autopiedade, Incinerado Pelas Labaredas da Fogueira da Inquisição. Maratonei o spin-off Fear The Walking Dead, agora parto para as duas últimas temporadas da série original, será um parto normal, de cócoras na beira do rio. Depois do advento AVC, em maior ou menor grau, alterno a sensação de estar como um alienígena num corpo que não me pertence, enclausurado numa vida que não é mais a minha, vivendo numa narrativa paralela, como um zumbi vagando pelo limbo, emulando uma interação com um meio que me é estranho e do qual estou alienado. Vez ou outra sendo permitido, na maioria das vezes, excluído, ferido, lançado à vala comum junto com outros corpos, defuntos sem alma, algo amorfo, atravessado no meio da estrada, atrapalhando o fluxo. Sou sumariamente retirado de algumas narrativas e sugado para outras, de uma forma disforme, na qual acabo não pertencendo a nenhuma delas, mas todas me causando mais estrago e me puxando para mundos que não pertenço. Definitivamente morri, estou no limbo, capturado para simulacros que não são os meus, trilhando caminhos tortuosos que invariavelmente conduzem a dor e mais dor, recebendo descargas energéticas e psicológicas de vidas que me sequestram de mim mesmo, para submergir em universos e infernos que cozinham minha mente, dilaceram meu corpo, esmigalham meus ossos, gerando um Frankenstein com pedaços de corpos mortos sem vida que perambulam desconexos em rotinas pré-determinadas. Estou destruído, quebrado em mil pedaços e quando imagino ter forças para me reconstruir, sou partido novamente em tantos pedaços que já não consigo me identificar em mim. Se minha estrutura física já combalida não fosse um desafio quase intransponível, sobre minha arquitetura psicológica amalgam-me pesos que não seriam razoáveis de suportar nem quando estava “são”. Sou um corpo e alma adoecida e que adoece ainda mais com os espectros surgidos de simulacros de outras existências que saltam sobre mim. Desgraça! Eu nunca quis nada disso, nem para os outros, nem para mim. Eu só queria amar, vibrar na energia do amor, que se torna impensável nesse mundo doente. Em que momento deixamos que extraíssem o amor de nós? Por que mesmo no amor a dor vai se instalando e transformando tudo em outra coisa? Por que a busca de outra alma para compartilhar o amor se transmuta silenciosamente como uma serpente que esgueira-se sorrateiramente? Conjugar o amor é simples: eu te amo, tu me amas, nós nos amamos. Mas… o que pensam a respeito os papagaios, gatos, cachorros, patos, lagartixas, calangos, dromedários, baleias, centopeias, orangotangos, protozoários e recalcados? Qual a opinião das águas-vivas sobre o meu amor? O mundo está doente. As pessoas estão doentes. Não se reconhecem no outro. Criam paranoias de aliens, zumbis, demônios, como muletas para refugiarem-se na ilusão de segurança de seus casulos, de onde constroem seus “bunkers” e saem não transformados em borboletas, mas metamorfoseados em quimeras monstruosas. Espectros fantasmagóricos que se alimentam e propagam energias de baixa frequência e vão habitar os guetos subterrâneos do submundo. Que criam narrativas falsas à partir de suas incompreensões e as difundem numa onda de perversidades, cancelamentos, julgamentos, linchamentos, banimentos, execuções, numa trilha sanguinária e impiedosa que causa dor e sofrimento a inocentes que não comungam de seu medíocre senso comum de moralidade e valores. Afetuosamente… FODAM-SE! Vincent Van Gogh foi considerado louco por seus contemporâneos. Incapaz de viver num mundo no qual não era compreendido, suicidou-se. Chatterton suicidou. Kurt Cobain suicidou. Nietzsche enlouqueceu. Cleopatra suicidou. Isocrates suicidou. Goya enlouqueceu. Sim porra! Eu estou escrevendo palavrões e escutando Seu Jorge às 3h da manhã. Estou em muito boa companhia. Eu vivo na arte e no extraordinário, e estou enlouquecendo. Só quero amor, só quero amar, me ame! Ou me interne…

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