Extraordinários

Relatos pós-enfermaria 25: Onde não havia glamour, mas sofrimento e dor. Entre Diarreias, Epifanias e o Profundo Verde de Seus Olhos. A Fabulosa História de um Doce José, Amortecido e Sem Acento, em Direção a Luz no Seu Leito de Morte, Esvaindo-se em Cafonices e Autopiedade, Incinerado Pelas Labaredas da Fogueira da Inquisição. Algumas pessoas são excepcionalmente extraordinárias que imprimem na nossa alma para a eternidade. Eu tive a honra e orgulho de compartilhar parte da minha existência entre muitas pessoas que de tão extraordinárias não cabiam em si, não cabiam numa existência só. Nascido num inverno rigoroso, retirado das entranhas de minha mãe por uma parteira que revelava detalhes das intimidades de suas pacientes nas conversas ao redor da fogueira do pequeno vilarejo de 10 casas de madeira formado no entorno da serraria. De início rural, mas urbanizado aos 5 anos, com sarampo aos 7, filho de enfermeira com carregador de engradados, que graças ao avanço tecnológico, ascendeu profissionalmente para condutor de empilhadeira. Neto de motorista com merendeira em escola pública, acumulando funções de faxineira, afinal, era necessário trabalhar para justificar a contraprestação recebida, morar no fundo da escolinha de madeira, de três salas, na Vila Urupês. Até os 12 anos, minha pré-adolescência foi brincando com amigos. Horas todos os dias dedicadas a “bugaia”, um jogo com 5 pedras, atirando algumas para cima e com a mesma mão pegar as que ficavam no chão batido de terra, vermelha, eram alternadas entre as solitárias corridas de “fórmula 1” com protótipos feitos de caixa de fósforo, ou futebol de botão de tampinhas de garrafa. O time do Internacional era patrocinado pela Brahma, enquanto que o Palmeiras, pela Soda Limonada da arquirrival Antártica. Quando a vigilância da avó descuidava e a ousadia era maior, a diversão era brincar no “Buracão da Vila Sapo”, uma erosão enorme que consumia o final da rua 3 quadras abaixo, no limite da cidade. Ali, eu e meu irmão fizemos amigos, alguns que reencontramos décadas depois, em outras condições. Nem tudo era alegria, principalmente depois de iniciar a “vida adulta”, aos 15 anos, e começar a trabalhar. A maior raiva eram os dias de chuva, com a bicicleta “barra-forte” atolada no lamaçal por causa do acúmulo de barro entre o pneu e o para-lamas. A aposta sempre foi no estudo que meus avós e meus pais nunca tiveram. Minha avó, tinha estudado até a 4ª série, pomposamente numa escola de freiras, onde aprendeu a cozinhar os melhores doces de “compotas” que já experimentei, ainda agora, as papilas gustativas salivam só da lembrança do sabor do melhor de todos, o doce de abóbora em calda. Meu avô, descendente de italiano, que até aos 14 anos morava na colônia, e não falava português, tinha estudado até o 3º ano, embora nunca o tenha visto depois pegar um livro, escrever algo no papel, além da própria assinatura. Meu pai, surdo-mudo, na década de 50, no interior do Brasil, não parecia ser o melhor do mundo para se alfabetizar excepcionais. Minha mãe foi exceção, nordestina cabeça chata, teimosa, enfrentou toda sorte de preconceitos no sul maravilha, ainda assim, extemporaneamente conseguiu frequentar a faculdade junto com o seu rebento de 20 anos. O ensino médio, colamos grau juntos, na mesma cerimônia, imagina o orgulho da mulher que 15 anos antes, trabalhava o dia todo e sequer podia ligar o radinho de pilha, na casinha de aluguel de dois cômodos, de fundos para a locatária, dona Rosa, que era só espinhos, se ouvisse barulho depois das 8 da noite, ia bater na porta. Televisor, só preto e branco, de 14 polegadas, muitos anos depois na própria casa, comprada com o suor de seu trabalho, no terreno ao lado, de propriedade da dona Rosa, que no dia anterior a entrega, arrancou todas as ramas de mandioca, tinha vendido o terreno, não as benfeitorias. Muitos anos e histórias depois, meu pai foi o primeiro a morrer, AVC potencializado pela diabetes, na sequência meu avô, e um pouquinho depois minha avó, que na noite da sua morte, em “viagem astral” esteve no pé da minha cama em Curitiba, distante mais de 400 km, para se despedir de seu netinho querido, o Carlinhos. Pessoas extraordinárias, minha mãe, cabeça-chata, branquinha, saída do nordeste, cruzando o Brasil para amar meu pai, surdo-mudo, pretinho, com o olhar mais doce e manso que já vi, saído do Rio Grande do Sul. Minha mãe a melhor enfermeira que conheci, meu pai o melhor e mais dedicado empilhador de engradados, meu avô o melhor motorista do departamento de educação e minha avó a melhor merendeira, se tornou a avó de todos, de todas as turmas, de todos os alunos e professores que entravam várias vezes na fila para pegar “repeteco” das gostosuras a base de “PTS”, popular carne de soja. Assim, sigo na estrada, com minhas origens e referências, numa jornada de erros, falhas, quedas e insucessos, abraçando árvores, dançando na chuva uma música que ninguém ouve, tentando não envergonhar muito meus extraordinários, plantando minhas sementes, deixando meu rastro pelo caminho, fazendo o melhor que consigo.

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