Ladrões de si

Relatos pós-enfermaria 25: Um apêndice do relato de espinhos e revelações de outra vida, de outra pessoa, que já não existe mais em mim. Os neurônios vão se acomodando, a as memórias voltando como uma tempestade, sem o menor respeito ou liturgia pela cronologia, e assim, ou deixo transbordar essa pororoca ou vão se perder no tempo, sem serem testemunhadas por ninguém, logo, amigos e amigas, além de me concederem audaciosamente a honra de considerá-los na intimidade desta forma, também o são, parte do meu experimento sociológico que se transformou a minha vida, e cobaias testemunhas da minha existência, para que ela não seja totalmente irrelevante, e seja menor ainda do que o cisco que é. Paradoxalmente é muito fácil ser meu amigo, como também pode ser complexo, a conhecida metáfora da cebola, que se revela em camadas, fácil de se gostar, da mesma facilidade de se detestar, e mais ainda de se ignorar, então se ainda por uma benevolência permanecem aqui, eu os amo por isso, a maioria já se foi a tempo, e a recomendação sensata é “fuja loko”. Lembrei-me que na extraordinária história de vida do meu avô, morto aos 90 anos, de uma atividade singular, inquieto por natureza, necessitava estar em movimento sempre, só pode ter nascido antes do tempo, mas é apenas especulação, antes de terminar a vida aposentado como motorista do departamento de educação, e no lapso entre seu início como “desmatador” das florestas do Paraná, na década de 50, gerente da serraria do pequeno vilarejo de 10 casas onde nasci, foi ele tb… motorista de “pedreira”, agora não sei se do escritório administrativo, ou de um dos caminhões que transportava as pedras. Só lembro esparsamente dele contando as histórias do vai-e-vem dos caminhões, das explosões, dos acidentes, e de “bananas de dinamite”. Nessa época era muito pequeno, é remota lembrança de antes dos meus 5 anos, distante a meio século. Lembrar disso foi fascinante, assim como história de alguém que já teve contato com alguém que teve contato com “bananas de dinamite”! Definitivamente existia um mundo fantástico antes das redes sociais, rádios a válvula como na abertura de “Fallout”, caixas de lenha, nas quais ficávamos sentados ouvindo as histórias, esquentando-se do frio do inverno ao redor do fogão, obviamente a lenha, no qual vez ou outra, era alimentado com nós de pinho, e que por sua vez, invariavelmente queimavam aos estalos, e no caixote de lenha, que tinha uma espécie de portinhola, por onde se colocavam e tiravam as “lenhas”, e que servia de bancada para ficarmos sentados, e nós crianças de 5 anos ou menos, sentados no caixote, balançávamos os pezinhos por não alcançarmos o chão. Ali tínhamos o primeiro contato com o fantástico, ouvíamos histórias aterrorizantes de monstros e lobisomens, e comíamos pinhão cozidos no calor da “chapa”. A boa e velha tradição oral que nos trouxe até aqui nessa jornada. Umas das coisas mais fascinantes do meu avô, e de seus contemporâneos é como eles eram romanticamente xucros. Meu avô contava com orgulho de como uma vez moço, com dores mas como homem da época, relutante em ir ao médico, e quando foi o diagnóstico era de que teria de ser operado do apêndice, no que o médico virou as costas para ir preparar a cirurgia, o italianinho xucro, com o apêndice fodido, não pensou duas vezes, sem a menor exitação, saltou pela janela e fugiu. Até hoje o médico o estaria procurando para fazer a cirurgia. Contava e ria, como se fosse vantagem. Como viviam essas pessoas? Como sobreviveram? Meus filhos nunca subiram num muro para roubar goiaba do pé do vizinho, meu vizinho nem sabe o que é e como é pé de goiaba. Dr. Jeferson me proporcionou essa alegria meses atrás, fomos roubar goiaba no sítio. Não teve a mesma sensação do ser apanhado em delito, aquela adrenalina e frio na espinha que só meliantes de goiabas sabem, de estarmos fazendo algo errado, do proibido, sensação parecida com o frio no estômago de um ator em uma estreia, “e se eu esquecer o texto?”. “Se a velhinha surda da última fileira não ouvir o que disse?”. Se não coloquei as crases corretamente ou não fiz adequado o uso dos porquês? Dúvidas existenciais que permanecerão. Afinal, o sítio do qual roubamos goiaba era dele, Dr. Jeferson era o próprio proprietário da propriedade. Roubamos as próprias goiabas dos pés de goiabas dele. Analisando isoladamente foi frustrante, mas foi um dia divertido no qual além das goiabas, aproveitamos o descuido do proprietário e roubamos outras frutas, mangas, abacates, limões. Meliantes agem como meliantes, se fossemos pegos roubando goiaba e tivéssemos que arcar com as consequências, que o fizéssemos de sacola cheia. Voltei com as roupas cheias de “picões”. Aos 14 anos meu avô, o italianinho grosseirão, como tradição de família, esquenta os pés e pernas sentado no caixote de madeira, com as pernas de moleque saracura esticadas e sobre a proteção de aço que fica entorno da chapa do fogão. Não satisfeito e ainda com um pouco de frio, no auge da intelectualidade de italianinhos grosseirões com 14 anos tem, teve a brilhante ideia de passar álcool nas canelas para “esquentar mais”. E esquentou. É interessante perceber como labaredas de fogo de fogão a lenha adoram álcool em cambitos de italianinhos grosseirões de 14 anos. Inventado estava por meu avô, aos 14 anos, o método de depilação por fogo. Ao que se saiba não foi um método muito popular, inadvertidamente não teve um único seguidor, as redes sociais não estavam muito ativas ainda, e não patenteado, também não o deixou rico. Aos 90, antes de morrer, o ativo sr. Guido encontrou tempo para uma última peripécia, subir no telhado para arrumar a antena da tv que estava “chuviscando”. Intrépido subir no telhado, de onde só desceu resgatado pelo corpo de bombeiros. Do início ao fim foi assim. Como disse o amigo Vagner no colóquio dessa noite, para justificar o injustificável, perante olhos e ouvidos incrédulos de Vanessa: Homens são assim, dentro dos maiores, inclusive, habita uma criança. Seguro Vagner, seus inconfessáveis segredos repousam sepultos num terreno pedregoso administrado por estagiários. Por enquanto. Como responderia a provocativa afirmação de Diogo Nogueira ao comentar a foto de sua namorada Paolla de Oliveira de magnífico fio dental: “é tudo meu”. Por enquanto. Nasci, tive influências e vivi nesse romântico e fantástico mundo só meu, sou o dono do meu mundo. Por enquanto. Forasteiro se entrou por uma porta aberta, desfrute as frutas, dores, dissabores e delicias. Aqui a centelha se transforma em labaredas, consumido, vira cinzas.

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