Orelhudinho

Relatos pós Enfermaria 25: Onde não havia glamour, mas sofrimento e dor. Entre Diarreias, Epifanias e o Profundo Verde de Seus Olhos. A Fabulosa História de um Doce José, Amortecido e Sem Acento, em Direção a Luz no Seu Leito de Morte, Esvaindo-se em Cafonices e Autopiedade, Incinerado Pelas Labaredas da Fogueira da Inquisição. O ontem morreu na fria chuva da madrugada do hoje. Transformou-se em histórias, algumas para serem contadas, outras esquecidas. No final da década de 1970 o mundo era outro. Estados Unidos e União Soviética viviam a Guerra Fria, a corrida espacial, uma escalada armamentista nuclear, contraespionagem e ameaças constantes de que um dos dois lados apertassem o “botão vermelho” colocando fim a vida humana sobre o globo terrestre. No Brasil, uma ditadura militar havia colocado fim as eleições e às liberdades civis. Em 1972 chegava uma espetacular novidade, a TV em cores, mas por muitos anos, só na casa dos ricos, em aparelhos com impressionantes 14 polegadas de tela, que poderiam ser adquiridos por módicos U$ 1.300,00 em qualquer Loja Mesbla. Os pobres tinham a opção de comprar uma espécie de tela colorida que se colocava em frente a tela para alterar a cor cinza da imagem emitida por seus aparelhos. Era bem legal, não me lembro direito, mas tinha nas cores verde e azul. Nada mais era do que uma armação de vidro ou acrílico em cor única, víamos a imagem toda verde, ou toda azul. Evidente que na casa do vizinho mais próximo, o sr. João Baiano, que ficava a uns 4 quilômetros de subida na estradinha de terra que levava até a chácara. Era uma aventura porque precisávamos passar a ponte, de madeira, e claro, que esse percurso fazíamos de charrete. A vida tinha outro tempo, outro ritmo, parecia lenta, mas era apenas ilusão, em 1968 a Ford tinha lançado seu “Corcel”, que em 1973 já tornava-se sonho de consumo em sua versão GT amarela, com duas faixas pretas no capô, de motor carburado duplo e possantes e vigorosos 85 cv. Belchior já se desesperava poeticamente em “Palo Seco” em vinis rodados a 78 rotações nas vitrolas com agulha de diamante para ouvidos mais sofisticados nas casas de famílias intelectualizadas. Desse tempo, para uns anos antes, o menino que, após problemas no motor da rural verde e branca, foi encontrado gatinhando no meio de uma plantação, com a boca suja de terra, mastigando uma rama de mandioca, e para uns anos depois, já com óculos e na 5ª ou 6ª série do gigantesco e assustador Colégio “Unidade Polo”, de três turmas por série, cada período, uma década inteira tinha voado como um piscar de olhos. Aos 12 anos já era tempo de deixar os carrinhos feitos de caixinha de fósforo de lado, se Emerson Fittipaldi, brasileiro, que já tinha sido campeão de fórmula 1 havia trocado o vermelho e branco da McLaren para correr com seu amarelo “Copersucar”, eu podia ousar enfrentar a vida. O colégio era assustador e imponente, devia ter de 350 a 400 crianças correndo pelos corredores por período. Minha avó me levou no primeiro dia, lembro que fiquei extasiado, parado, um tempão parado olhando toda aquela agitação em volta, como se estivesse em câmera lenta, quadro a quadro. Só me senti assim de novo, na primeira vez que vi São Paulo, Estação Tietê, Praça da Sé, entrando em bloco no metrô, sem tempo nem espaço para erro, sem individualidade, um choque na noção de mundo. O colégio era tão grande, tinha vários blocos, uma quadra de esportes, horta e até um bosque com uma pequena clareira no meio, local preferido das brincadeiras, bolinha de gude, pega-pega, salva e… cabra cega. Tinha uma menina linda, a mais linda da turma, já não lembro mais o seu nome, assim vou chama-la de Ana. Cabelos negros, morena de pele branquinha, boca linda, porta de sua alma, que não fazia questão alguma de esconder seu feliz sorriso de classe média, que tinha seu próprio aparelho de telefone, para o qual eu liguei do “orelhão” algumas vezes, mas nunca tive a coragem de dizer uma só palavra. Até hoje ela imagina ter sido trote do “Marcelinho”, o riquinho cabeludo, alto e magricelo jogador de basquete da 7ª série que voava em suas “bandejas” na quadra. Reza a lenda que até tinha conseguido “enterrar” uma vez num jogo contra o time do “Colégio Estadual”, na única heroica vitória do nosso time contra eles. Ficávamos sempre em terceiro nos jogos estudantis, atrás do maior “Colégio Estadual” da cidade, único com três pavimentos e do “Afirmativo”, o colégio particular para os filhos da “alta sociedade”, uma espécie de licenciamento que utilizava as apostilas do “Positivo”. Naquele ano, ficamos em segundo, derrotados apenas na final pelos “riquinhos”. Aprendi cedo que mulheres novas amadurecem antes e gostam de homens mais velhos, melhor se forem esportistas, se pertencerem a famílias ricas e tradicionais também não causa nenhum constrangimento, pelo menos na época. O corpo de Ana já começava a se modificar, a se tornar mais menina do que as outras meninas. Era alguém inesquecível, mesmo que a memória te traía e não lembre mais seu nome, mas Ana fica bem, é um anagrama à sua altura. Óbvio que, em seu mundo, Ana não enxergava o orelhudinho, dentuço, quatro olhos, afinal ela era a menina mais popular da turma, para quem se dirigiam todas as atenções, tanto de meninos, quanto de meninas, todos queriam ser seus amigos, e claro que eu estava entre seus invisíveis pretendentes, mas minha “reputação de CDF” me precedia e ao mesmo tempo era um impeditivo natural à ascensão ao círculo dos populares. Sem dúvida era culpa dos óculos, meu acessório que me distinguia dos demais. Fazer as tarefas em dia, todos os dias, tb contribuía um pouco com essa péssima reputação, e claro, o estilo do corte do meu cabelo tb não ajudava muito. Fato é que, pensando melhor, o conjunto de minhas características e habilidades, não comungava com as características dos populares, mas na época, com 12 anos, não tinha ainda percebido isso, aos poucos a vida vai se encarregando de nos ensinar, mostrar que o mundo pode ser diferente de como o enxergamos. Num dos intervalos, sempre solitários, foi que tudo realmente começou a mudar na minha vida. O tempo não estava bom, estava meio chuvoso, com nuvens, mesmo assim, a criançada foi para o bosque brincar, e eu, criança naturalmente fui junto. Acho que a primeira brincadeira foi “salva”, e magrelo, naquele dia, inexplicavelmente não fui dos primeiros a ser pegos, ao contrário, consegui salvar os amigos “umas duas vezes”, sem dúvida alguma estava sendo o meu dia mais feliz. Não me lembro quem deu a ideia de mudar de brincadeira. Sugeriram pique-esconde, lenço atrás, ringo-raia?? Mas prevaleceu por ideia de alguém cabra-cega, e claro, quem melhor para ser a cabra-cega do que o único 4 olhos da turma??? Improvisaram uma venda, não sem antes ouvir as piadas politicamente corretas de crianças da década de 1970 como: “nem precisa, é só tirar os óculos fundo de garrafa que ele não enxerga nada”. Sempre tinha um engraçadinho, sempre tinha uma piadinha. Era quase que uma tradição, quem começava as brincadeiras era Ana, a mais popular e mais linda da turma, e aquele dia que já estava sendo especial, se tornou mais especial ainda. Ver Ana andando para pegar a venda, com seu hipnótico rabinho de cavalo balançando de um lado para o outro, causava uma sensação extasiante. E depois que ela pegou a venda e veio em minha direção, parecia que o tempo havia parado, era um sonho, algo inimaginável no meu pequeno cérebro de garoto de 12 anos. Eu me deliciei em cada passo, curti cada momento, até que ela chegou a um passo de mim. Naquela época acho que crianças não usavam desodorante, não me lembro quando comecei a usar, mas Ana, meio que já quase mocinha, tinha um cheiro especial, talvez jasmim, talvez na minha cabeça, não importa. Ela estendeu suas mãos e colocou delicadamente a venda nos meus olhos, sobre os óculos mesmo, acho que devo ter sido a primeira cabra-cega da história de óculos. Ela passou atrás de mim, amarrou a venda delicadamente, me perguntou se estava muito apertada. Devo ter gaguejado ao responder, ela disse que iria me girar, para eu ter cuidado para não cair. Depois disso aquelas suaves mãozinhas tocaram meus braços, era definitivamente o dia mais feliz da minha vida, ela me girou umas duas ou três voltas, me soltou, fiquei tonto, mas não cai, por tudo que era mais sagrado no mundo, não iria dar esse vexame no dia mais feliz da minha vida. Permaneci em pé, titubeante dei um primeiro passo, um segundo, ouvi uma gritaria de crianças fugindo, eu estava entusiasmado, já tinha “salvado os amigos”, Ana tinha vindo em minha direção pela primeira vez na vida, pela primeira vez ela tinha me enxergado, falado diretamente comigo, só comigo, exclusivamente comigo, o cabra-cega, tinha me tocado, tinha sentido seu perfume e… depois da gritaria de crianças fugindo… o silêncio… mais silêncio.. lembro de ter dado alguns passos numa direção e nada… era provável que tivesse escolhido a direção errada, então mudei de direção tendo impressão de ter escolhido a direção oposta, ainda nada. Mudei de direção mais umas quatro ou cinco vezes, até ficar totalmente perdido, tudo estava quieto, absoluto silêncio, até que finalmente esbarrei em algo, rapidamente abracei para não deixar fugir, foi um abraço gostoso, tirei a venda… era uma árvore… olhei em volta, o silêncio era o nada, estava sozinho, sensação de vazio, sempre estive sozinho desde… sempre. Acho que abracei minha nova amiga árvore outra vez, e muitas outras vezes depois, até o dia que ela não estava mais lá, a nova direção precisou do espaço para construir um ginásio. No dia mais feliz da minha vida, na volta do bosque para a sala de aula, a natureza, minha amiga, choveu, misturou suas águas frias e doces com as minhas salgadas.

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