Plumas

Relatos Pós-enfermaria 25: Onde não havia glamour, mas sofrimento e dor. Entre Diarreias, Epifanias e o Profundo Verde de Seus Olhos. A Fabulosa História de um Doce José, Amortecido e Sem Acento, em Direção a Luz no Seu Leito de Morte, Esvaindo-se em Cafonices e Autopiedade, Incinerado Pelas Labaredas da Fogueira da Inquisição. 3:33, de novo. Madrugada, de novo. Dor, de novo. Tempestade se formando, de novo. Partido em mil pedaços, de novo. Nada de novo. Nem a chuva que cai lá fora, nem a que cai aqui dentro. No belíssimo filme “Dúvida”, a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep) entra na vida do padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) e suas atitudes, aparentemente bem intencionadas, causam um efeito devastador. No sermão de despedida, o padre conta uma parábola, de uma mulher que tb devasta a vida de outro homem, se confessa, diz que sentia muito e pedia perdão. O padre diz que não é simples assim e lhe dá uma penitência, que ela fosse para casa, levasse um travesseiro para o telhado, cortasse-o com uma faca, e depois trouxesse para ele. A mulher voltou para casa, pegou a faca e o travesseiro, levou-o para o telhado e o apunhalou. Ela voltou para o padre e ele lhe pergunta qual foi o resultado. Ela responde: Plumas. Plumas por toda a parte. O padre diz para ela voltar e recolher todas as plumas espalhadas pelo vento. Ela disse ser impossível pq o vento espalhou as plumas por todos os lados. Assim tb o é quando caímos e nos partimos. Se vc cai sucessivas vezes, a cada queda, mais estilhaçada sua alma fica, e impossível juntar os cacos, mais suas plumas se espalham ao vento. A chuva que cai lá fora não é de redenção, não lava a alma, é a amiga natureza chorando, fazendo companhia para minhas lágrimas, minhas dores, meus lamentos, meu sofrimento, minha alma estilhaçada. Não há conforto. Não há palavras. Não há sentido, e sem sentido, não há existência, só o vazio do silêncio e plumas espalhadas ao vento…

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