Zumbidos

Relatos pós Enfermaria 25: o que resta depois da síntese? Vírgulas, traços, zumbidos, ruídos, fragmentos, nuvens, neblina, frio, negligência. Não há direito nem ao silêncio. Nem lembro mais de quando começaram os zumbidos de mil grilos. Meu pai era surdo, viveu o mundo dele, o mundo possível para ele, o mundo possível para um negro, já que na época não existiam os afrodescendentes. Pobre em recursos físicos, intelectuais, romanticamente feliz na sua ignorância. Um bruto de olhar e sangue doce, que fez o possível com o pouco, quase nada, que tinha. Adorava batatas, feijão e carne. De herança me deixou o gosto pelas batatas, que nem tenho mais, serviram apenas como lentas geradoras de pelancas. e a brutalidade mal domada que o tempo incumbiu-se de acalmar. Há algum tempo, a visão alterada pelo sarampo desde os oito anos, enxerga sombras que se movem na penumbra do quarto. Quarto que foi testemunha silenciosa dos tempos de escandalosa luxúria, que agonizam num canto, ao lado do desejo. O que sobra afinal ao final além da certeza do fim? Cicatrizes da jornada, por não raras vezes, encobrindo outras. Feridas emocionais permanentemente abertas, vísceras expostas num grotesco espetáculo gore de fim de noite, fim de festa chata em que a bebida acabou cedo. No fim do texto que arrasta-se sem sentido, moribundo, fétido, desnecessário, desinteressante a ponto de não se justificar nem reticências, abundando traços, restam os intermináveis zumbidos.

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